O filme “Contato” (1997) dirigido por Robert Zemeckis é um dos meus favoritos. Lembro de assistir a primeira vez quando ainda estava no ensino médio em uma fase em que me via fascinada com o cosmos. A grandiosidade do universo foi o que me encantou com o filme naquela época. Hoje é uma outra grandiosidade que me prende ao filme.
A cientista Ellie Arroway (Jodie Foster) sempre buscou evidências de vida fora da Terra. Ela dedicou toda sua carreira a isso e abdicou até mesmo de vida social em seu empenho em encontrar a verdade lá fora. Em meio a seus esforços ela consegue finalmente captar uma mensagem vinda de fora do planeta e então começa a aventura em descobrir o que eles querem nos dizer.
É impossível começar a falar de “Contato” sem falar da cena inicial do filme e acho que pode ser o começo da nossa discussão. Zemeckis nos mostra uma imagem da Terra vista do espaço, próximo a sua orbita. Podemos ouvir as ondas de rádio do que estava em alta nos anos 90. Aos poucos, vamos nos afastando do planeta e quando mais distante ficamos, mais antiga vai ficando a transmissão que ouvimos.
São as nossas marcas espalhadas pelo espaço, o print sonoro que deixamos e que vai fluindo pelo universo, cada vez mais distante. Até chegarmos tão longe que não podemos ouvir mais nada. Estamos muito longe do que foi transmitido.
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O primeiro pensamento que me veio a cabeça é a percepção do quão pequenos somos. O planeta Terra some da tela e não há mais nenhuma marca dele no universo. O infinito universo. Nós humanos nos achamos gigantes e poderosos, mas diante da magnitude do universo nós não passamos de um grão de areia. Nos faz refletir sobre o quão realmente pequenos somos.
Esse é o pensamento inicial, mas outros questionamentos foram surgindo durante o filme. Uma frase repetida algumas vezes em “Contato”, é que seria um grande desperdício de espaço se fossemos o único planeta com vida. E realmente seria. Nós humanos, seres completamente falhos e ambiciosos, os únicos seres inteligentes a existir? Um tremendo desperdício. Conforme o longa vai passando, nós somos apresentados a diversas atitudes egoístas vinda dos humanos que nos faz questionar se somos realmente especiais.
Em diversos momento, “Contato” também nos faz questionar a existência de Deus. Estamos falando de uma história envolvendo a ciência, a busca pela verdade por meios práticos e empíricos. Nós não podemos provar a existência de Deus, mas até esse momento também não podemos provar que ele não exista. É uma questão de fé. Porém a fé não está diretamente relacionada a religião. Fé é acreditar em algo que não pode ser explicado. Nós acreditamos no amor que sentimos por nossos familiares, acreditamos na possibilidade de um mundo melhor.
E é durante o ponto alto de “Contato” que minha mente também chegou em seu momento de revelação. Em uma sequência completamente alucinante nós viajamos com Ellie e o que encontramos é lindo. Não só as imagens que nos são mostradas, belíssimas pinturas celestes, mas também os diálogos. Nós sermos uma pequena poeira no universo não nos faz pequeno. É aqui que eu enxerguei o que realmente era grandioso.
O ser humano, mesmo egoísta, mesmo falho, é sim uma criatura especial. Nós somos capazes de coisas horríveis, mas também de atos de imensa bondade. Nós temos empatia que nos move a ajudar o próximo mesmo quando as coisas estão mais difíceis. Nós temos esperança de um futuro melhor. Nós somos capazes de evoluir. Capazes de amar. E talvez o mais bonito seja nossa capacidade de entendermos o quão pequenos somos diante do universo. É um ato de humildade e não de arrogância a nossa eterna busca pela verdade.
“Contato” é uma lição sobre a beleza que há em ser humano e no desejo de conhecer o universo. Não importa se você acredita em Deus ou não. Não importa se um dia teremos todas as respostas. É a busca pela verdade que nos move. É sabermos que mesmo que se estivermos sozinhos no universo, o que é improvável, nós não estamos sozinhos aqui na Terra. Ser humano não é solitário. É ser especial.
Zemeckis consegue nos contar tudo isso em apenas 2h30min de filme com sua direção sensível e sutil, com cenas de contemplação e confrontos que nos levam a esses questionamentos. Pelos olhos de Ellie nós conhecemos o desconhecido e buscamos a verdade. Pela câmera de Zemeckis nós somos apresentados ao impossível e invariavelmente bonito ato de ser humano.
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