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Proibido Ler

  • Todo Dia…

    Data: 08/05/2010 • Categoria: Texto

    Carlos Drummond de Andrade escreveu “No elevador penso na roça, / na roça, penso no elevador.” em seu poema intitulado Explicação… E, ao lê-lo, vi uma semelhança com algo que está presente em todos os dias de nossas vidas: a rotina!

    Você acorda todo dia no mesmo horário, toma um banho rápido, se arruma, engole rapidíssimo um café – quando dá –, e parte para rua. Enfrenta aquele ponto de ônibus lotado à espera daquele ônibus mais lotado ainda, e com as mesmas caras; isso, claro, quando não tem de se aventurar pelo trânsito característico do horário de pico.

    Chega no seu local de trabalho, no colégio, na faculdade ou em qualquer lugar onde você tem de comparecer por, no mínimo, cinco dias por semana, e começa a fazer as mesmas coisas. Tem de aturar aquele chefe corno, a secretária mal-comida, e os seus colegas que insistem em pensar que são melhores que você. Na faculdade, é preciso aguentar algumas aulas que não têm valor para o futuro que almeja, além de conviver com pseudo-intelectuais, que leem a porcaria de saga Crepúsculo, mas dizem ler Dostoievski; sem contar as aulas picaretas de professores picaretas!

    A salvação é quando chega o fim do dia, quando é preciso voltar para casa. Seria ótimo, claro, se você não tivesse de enfrentar todo aquele lance de ônibus e trânsito novamente…

    Você, então, lembra daquela música do Seu Chico Buarque (aquela ali no fim do texto), e pensa: preciso de férias! E depois de muito brigar com o chefe, e passar pelas provas semestrais, eis que chega o tão esperado momento… 30 dias de pernas para o ar! Maravilha…

    Viagem para o campo, tomar picada de pernilongo na beira do rio, ouvir histórias de Saci, Curupira e afins, ordenhar vaca (a fêmea do boi, não aquela sua conhecida bípede) e tomar leite quentinho. Visitar parentes, aquela sua tia gorda varizenta que não o vê desde sempre; reencontrar os amigos. Viagem à praia, mulherada de biquíni, Cicarelli dando uma em alto mar bombados de pinto murcho, frango, farofa, bicho geográfico, micose… Festas, muitas festas; churrasco, baladas, gente pobre se fazendo de rica, playboys, homens bêbados, mulheres fáceis (barangas), putaria, mais putaria, ressaca…

    Passam-se 10 dias, e você não aguenta mais as saudades que sente de ter de ir dormir cedo para acordar morto no dia seguinte; do cobrador simpático que sempre lhe dá um sorriso enquanto diz um “Bom dia!” animador; das paqueras que rolam quando o trânsito está parado. Sente falta daquele encarregado que sempre dá um jeito de contrariar as ordens do chefe, aliviando o lado dos seus subordinados; daquele seu amigo do escritório, por quem você sempre teve uma quedinha. Não vê a hora de poder conversar sobre assuntos acadêmicos com aquela sua amiga que pretende seguir a mesma carreira que você sempre quis ter… enfim, fica farto dessa rotina parada dos dias de ócio.

    Após o término da folga, volta ao que fazia, e, depois do primeiro fim de semana de descanso, começa a reclamar da rotina de ter de acordar todo dia no mesmo horário, tomar banho rápido… e o resto você já sabe!

    Agora peço licença ao mestre Drummond, para modificar seus versos e deixá-los mais fiéis às nossas vidas: “Na rotina penso nas férias, / nas férias penso na rotina.”

    Cotidiano – Chico Buarque:

    Um comentário sobre “Todo Dia…”

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